Estes meus mortos postos a meu fino toque
Trazem mais vida do que o fraco peito meu
O sangue quente do que há tão pouco morreu
Mais colorido é que a vida a meu enfoque

Silentes mortos, dizei aos sonhos partidos:
Sem tê-los perto, morro um pouco a cada dia
Contai, inertes corpos, da melancolia
Que vive agora nestes meus olhos perdidos

Purpúreo tom que escorre às mãos em borbotões
Mais calmaria tem que as minhas aflições
Rubro, contrasta com minha pele esmaecida

Mortos calados, vós sabeis de meus vazios
De almas fugidas, tendes vítreos olhos frios
A refletir a paz que eu nunca tive em vida

.triste esperança

abril 23, 2017

Minha esperança, tu vieste de repente
O nome teu eu não chamei nenhuma vez
Tu percebeste minha enorme insensatez
Ou viste tu a cor de um coração doente?

Breve esperança, peço que me deixes só
Deixa eu despedaçar-me como deve ser
Deixa o meu sonho mais bonito fenecer
Que em breve tudo que me importa vai ser pó

Tola esperança, vai! – não és aqui bem-vinda
Alguma força eu consigo ter ainda
Não traz de volta meu cismar tão sonhador

Vês? A alegria já passou em despedida
Desilusão ficou: é velha conhecida
Triste esperança, não vem disfarçar-me a dor

.desta dor

janeiro 4, 2017

Como ter olhos contentes
Se me laceram os dentes
Da verdade que consome
Miséria de toda sorte
É o pranto, é a morte
É a fome, é a fome

Meninos de pés descalços
Com a morte em seus encalços
A ceifar-lhes sua aurora
Meu Deus, vivem como bicho
A se alimentar do lixo
Que outra gente jogou fora

Um velhinho abandonado
Olhos turvos de passado
E seu suspirar vazio
Senhora Mariazinha
Vai enovelando a linha
De seu derradeiro fio

Breve alento rarefeito
Parte e dá lugar no peito
À tristeza intempestiva
A fugir de meus assombros
Sempre carreguei nos ombros
Esta dor de se estar viva

.o palco

agosto 17, 2016

Eu era ainda uma criança caladinha quando veio, pela primeira vez, a sensação que iria me acompanhar durante toda a vida. A de que todos sabiam exatamente como agir, enquanto eu, ensimesmada, a olhar o mundo lá fora, tentava adivinhar onde pisar. Como quem chega atrasada logo no dia em que os roteiros do teatro foram distribuídos, sinto nunca ter conhecido meu papel. Não soube as minhas falas, a hora de entrar em cena, ou quando me retirar. Tudo sempre pareceu mais fácil aos demais – convictos, bonitos, afinados, a andar com firmeza pelo palco, alegrando a plateia. Mais espectadora que atriz, eu era, contudo, protagonista da minha vida, e por isso, tive que dar meus passos. E no enredo que se desenhava enquanto eu ia improvisando, nunca deixei de tentar encontrar alguma lógica, algo que me fizesse sentir parte de uma obra maior. E, no entanto, as coisas nunca, de fato, se encaixaram. Quem há de encontrar, por exemplo, sentido na morte? Não aquela morte, ao fechar das cortinas, depois de um longo espetáculo. A morte que, hoje, tenho às mãos, numa proximidade que não pode esconder o virar dos olhos: bruta, brusca, inoportuna. Aquela que interrompe a apresentação no meio e manda todos de volta pra casa, sem devolver ingressos. Eu que, ao longo dos anos, vinha tentando encontrar meu roteiro perdido, sinto o peso de pensar que, talvez, jamais tenha havido roteiro algum. E, despida sobre o palco, levo nos braços uma dor que às vezes parece demasiado pesada, enquanto ao peito carrego um amor que jamais pensei que me coubesse. Com os olhos cansados da busca por este provável motivo de tudo, vacilante, vou movendo, encenando quadro a quadro, como penso que deve ser. Vou tentando fazer bonito.

.retalhos

junho 25, 2016

Quero poder chorar, silenciosa
Que o mundo não me quer saber da dor
Nem quer ouvir meu verso redentor
Ou escutar de mim nenhuma prosa

Tentei fugir pra casa – não há jeito
Ao que o rumo de casa eu já perdi
Sou alma solta, andando por aí
Carrego a dor do mundo junto ao peito

Ao mirar-me, pergunto, confundida
O que ainda existe e qual lado morreu?
O que restou de mim que ainda sou eu?
Qual parte me levou embora a vida?

E as brumas desta imagem imprecisa
Enturvam o meu coração antigo
Não haverá no mundo algum abrigo
Para tão retalhada poetisa?

.minha metade

maio 7, 2016

Foi em teu labirinto, perdi meus caminhos
Nos teus lábios cerrados – silêncio profundo
Afoguei de uma vez os meus sonhos sozinhos
Em teus olhos rasgados, mirando outro mundo

Teu semblante calado e cabelo de neve
Silenciam minh’alma, dissipam-me a bruma
És o mais branco sonho de meu sono leve
A teu lado, das dores, não sinto nenhuma

És, de meu rosto rubro, doce alvorecer
Pulsa em mim tua fúria, tua intensidade
És fagulha de vida, nunca a fenecer

És presente e, assim mesmo, constante saudade
Eu, só, antes de ti não podia saber:
Eras de meu poema a perfeita metade

.sem sentidos

março 2, 2016

Pudera me livrar de meus sentidos
Razões de meu sofrer exacerbado
Motivos de meu verbo malogrado
E causas de pesares desmedidos

Meus olhos sentem ásperos sonidos
Do choro, a meu paladar, salgado
A inspiração de um ar enclausurado
Ecoa, sem cessar, em meus ouvidos

Se acaso cega fosse ou não sentisse
E o pranto a derramar não me traísse
Ou se soprasse toda a dor ao vento

Talvez, e só talvez, eu poderia
Livrar-me desta triste poesia
Que brota a cada novo desalento

.casa velha

janeiro 25, 2016

A sala tornou-se tão fria
Ressoa no espaço o ausente
E cada cadeira vazia
Rodeia uma mesa sem gente

Paredes que tinham guardado
A vida que enchia os espaços
Sozinhas, sustentam-se ao lado
De um chão que não ouve mais passos

A sombra de ingênuos desejos
Restou no banheiro esquecido
Coberto destes azulejos
Que ouviram meu pranto escondido 

Os quartos já descoloridos
Não guardam mais noites de sono
Ecoam mil sonhos perdidos
Num silencioso abandono

Não há mais cantos matutinos
Das aves que adornam o céu
Do lar de meus tempos meninos
Que o tempo embrulhou em papel

Saudosa lembrança infinita
Dos anos passados, enfim
Perdura na casa bonita
Que habita, hoje, dentro de mim

.flor de espinhos

novembro 28, 2015

A vida, moço, é uma dama
Andando pelo arame farpado
Envolta por longo vestido
Ninguém segue a seu lado
Primeiro, lhe rasgam a saia
Tão longa, quase não nota
Vai sumindo, fio a fio
Tem, por fim, a veste rota
Já desnuda pelas perdas
Mas sem qualquer cicatriz
Segue a moça, passo lento
Num rumo que não prediz
Vem-lhe, à frente, novas dores
Desta vez, sem seu vestido
Rasga-lhe o arame a carne
Deixa-lhe o corpo ferido
Então fenece, aos pedaços
No andar pelos caminhos
Ao que surge, onde era moça
Flor repleta de espinhos

.terra seca

novembro 11, 2015

Já houve um tempo em que eu não mais chorava
Cerrei o peito a qualquer dor profunda
E aquele rio que aos olhos inunda
Evaporou-se em uma seca brava

Pra que a tristeza não mais me afogasse
Dos sentimentos, fiquei na beirada
E estive, de mim mesma, abandonada
Enquanto a cor sumia à minha face

E por ter me tornado tão vazia
Cansei-me, um dia de viver à margem
E derramei, quando encontrei coragem
O meu chorar de dor e de alegria

.é preciso

setembro 21, 2015

Sei que é preciso: há que se viver no mundo de lá. Gosto, sim, de viver à meia-luz…mas há que se queimar ao sol. Gosto de meu cismar silencioso, e o barulho que há lá fora me arranha os ouvidos… é preciso, contudo, ensurdecer-se. Acostumar ao caos que minha natureza, já inquieta, tanto busca evitar, não parece, pois, ser fácil. Veja você, eu conheço meus vazios. Sair lá fora me dá a sensação de que é preciso preenchê-los, algo que sempre me pareceu um tanto improvável. Gosto do eco que meus questionamentos provocam nestes espaços, habituei-me à solidão de minhas partes incompletas. Não gosto de ser impelida a me adaptar. Não, não vai acontecer: esta busca sem sentido torna tudo mais sofrido. Os passos apressados não esperam meu andar de passarinho. As cores berrantes ofuscam os meus tons de aquarela. O calor excessivo sublima o choro que eu queria, pouco a pouco, derreter. Eu prefiro ser silêncio, ser massa disforme, sem tamanho, cor e cheiro. Mas há que se fazer visível, e por isso, explicar-se. E, se me explico, também me perco. E embora eu prefira me guardar em terreno conhecido, reconheço: é preciso se perder.

.da hora de partir

setembro 21, 2014

Era dia – mas dormia
Tinha a pele branca e fria
E os pés, acima do chão
Qual um sino, oscilava
O seu rosto revelava
Pálida desolação

Nenhuma palavra escrita
Ou qualquer frase bonita
A marcar seu despedir
Foi-se embora à francesa
Como quem já tem certeza
Da sua hora de partir

Mulher do corpo pendente
Por que tão impaciente
Fostes com tua aflição?
Ó, moça que hoje flutua
A tristeza que era tua
Fez calar teu coração

.

Ao homem sem nome no trilho do trem
Que rumo tomavas nestes dias frios?
Que cores tiveram teus olhos vazios?
Quem eras tu antes de seres ninguém?

Ó, moço esquecido ao caminho do trem
À margem do rio, o fim de teu trilho
Qual era teu nome, de quem eras filho?
Existe no mundo quem já te quis bem?

A aurora pintou o teu chão de vermelho
E o orvalho nas folhas foi como um espelho
Do desconhecido que a vida esqueceu

Ó, homem da pele da cor da geada
Calaste o trem que vinha na madrugada
Ao raiar do sol, teu corpo anoiteceu

trem

blood-splatter-wallpaper

Estava o corpo caído no chão. Um tom de vermelho vivo fazia moldura no rosto do moço que era filho de ninguém. O dia, ali, continuava. Passavam velhos e crianças. E as mães com os seus bebês no colo. Morte e vida, numa mesma rua, nem sem sequer desconfiavam que pudessem ser vizinhas. Eu vi um homem deitado no chão. A morte me olhou foi de olhos fechados. E, silenciosa, contrastava com o som dos passos, que não deixavam de pisar. A vida, ali, não esperava. Havia um cadáver, no chão. Os sonhos que não chegariam, o homem que ele nunca seria, secavam no sangue escorrido no asfalto, ao sol.  E como tudo ali seguia, como fosse qualquer outro dia, decidi que eu choraria pelo moço que dormia. O moço que dormia, pra sempre, no chão.

.

ponta-dos-pc3a9s

Nunca pude compreender quem pedia para o tempo passar depressa. De pequena, via, sem entender, os meninos querendo ser gente grande. Eu, por outro lado, virava fera quando me diziam que eu já não era mais criança. Despedi-me da meninice um tanto contrariada, quando, com lágrimas nos olhos, fui contar à mamãe que havia sangrado pela primeira vez.

Embora a saudade tenha sido sempre companheira nos dias que vieram depois, mantive esta mania de gostar do momento presente. Levei também a certeza de que o tempo passa rápido demais. E decidi, ainda pequena, passar pela vida na pontinha dos pés, pra que eu pudesse pisar em cada segundo.

Nunca peço para o relógio acelerar, mesmo nos tempos difíceis. Faço questão de vivê-los, são instantes todos meus. A tristeza me nasce, cresce como hera e floresce em poesia. E não há ano ruim, fase ruim: carrego comigo as marcas que me lembram dos minutos que andei dedilhando. As alegrias, levo na ponta dos dedos.

A vida é indecifrável e, por isso, tão bonita. Corre como as árvores pela janela do trem. Gosto é de ficar observando. E aprendendo. E me transformando.

Eu acho mesmo é que herdei o olhar da minha avó Anita.