palavras minhas

maio 12, 2012

Minhas palavras, nestes versos  eu declaro
O quanto sou feliz por tê-las cá comigo
Pois tantas vezes a vocês pedi abrigo
Passando então a enxergar tudo mais claro

As mais fiéis dentre todas as amizades
Momento algum me recusaram a presença
Permaneceram junto a mim na dor intensa
E traduziram meu penar, minhas saudades

Minhas queridas, eis aqui o meu encanto
Caras amigas, a vocês eu devo tanto
Foram vocês que me trouxeram poesia

Por terem, letra a letra, escrito a vida minha
Minh’alma triste então deixou de ser sozinha
Doces palavras, agradeço a companhia

paz e guerra

abril 25, 2012

Talvez se encontre a paz onde menos se espera: no olhar dum moribundo ou em um país em guerra. E talvez no seu sorriso, seu abraço acolhedor. Pois será que é a paz, uma forma de amor? O que é mesmo que eles dizem? Não me lembro, tanto faz. Só sei que disse o poeta: que “quem ama não tem paz”. Eu perdi a paz que eu tinha, foi o tempo que levou. Veio fácil, foi embora… do jeitinho que chegou. Foi-se embora a sanidade pela qual tanto esperei. Eu perdi minha clareza: eu sabia, já não sei. De repente, a claridade deu lugar à noite escura. E não é tentar ser são, uma forma de loucura?

correnteza

abril 9, 2012

Tu és de um lago cristalino, a calmaria
Sou eu o mar, no escuro duma tempestade
És a melhor definição de eternidade
E eu sou a chama duma vela à ventania

És de uma árvore o tronco e as raízes
Eu sou as folhas amarelas do outono
És a chegada, sou do lar o abandono
Sou eu fugaz como os momentos mais felizes

És estação, eu sou o trem já de partida
Meu coração vive uma eterna despedida
Tu és o abrigo do calor, eu sou o frio

Se és constante como o Sol, eu sou a Lua
Se tão mutante, como posso, então, ser tua?
Por que a margem foi gostar logo do rio?

a novata

abril 7, 2012

- Sabe aquela sensação do primeiro dia de aula na escola? Quando tudo é ainda muito novo e as pessoas não passam de estranhos, quase assustadores? Os corredores são como labirintos e as salas de aula parecem mais distantes do que realmente são?

- Eu bem me lembro.

- É possível notar pelos olhos quem são os novatos. Não olham para nada com muita certeza. Passam pelo mesmo caminho diversas vezes sem perceber. E se perdem constantemente…

 - Sim, é verdade.

- …muito diferente dos alunos antigos. Estes caminham com uma certeza admirável. Sabem exatamente para onde vão, os seus passos são ágeis e direcionados. Possuem o controle da situação, dominam o ambiente como ninguém. Estão em casa, completamente à vontade. Sabe como é a sensação?

- Sei sim. Mas o que tem?

- É que, ultimamente, tem me feito falta me sentir desta maneira em relação à vida.

 

 

cecília

abril 6, 2012

“Que procuras?
Tudo.
Que desejas?
Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão”
(Cecília Meireles)

 

 

desencanto

abril 1, 2012

Por que, meu Deus, tu me fizestes deste jeito
Me colocando um coração peculiar
Que, não contente em fazer sangue circular
Quis abrigar tanta tristeza no meu peito

Por que ganhei um coração se eu não sabia
Como lidar com esta estranha criatura
Que ora quer, depois desiste e então perdura
O meu sofrer por não saber, minha agonia

Por que motivo me fizestes tão sensível
Tornando tudo o que eu sinto tão visível
Por que cobristes meu olhar de desencanto?

Se eu não pedi um coração para o senhor
Por que enchestes o meu peito com o amor
E omitistes que o amor doía tanto?

solidão em dois atos

março 19, 2012

I.

Solitária agonia
Me parece não ter fim
Tantas horas no seu dia
E nenhuma foi pra mim

Quanta coisa eu rogava
Pras estrelas, pr’algum deus
Mas, de fato, eu só sonhava
Me aninhar nos braços seus

Nada cobre este vazio
Que deixou seu não-estar
Sou pequena, tenho frio
E ninguém pra me abraçar

II.

Me devolva a companhia
Sua ausência é tão ruim
Foi-se embora a alegria
Como um trem que parte enfim

Todo o encanto que ocupava
Os espaços que eram seus
Hoje é pranto que me lava
Estes tristes olhos meus

O meu rosto, um estio
Mesmo com tanto chorar
Solidão é como um rio
Que jamais encontra o mar

no jornal

março 16, 2012

Raimundo, filho da rua
Sem família ou documento
O seu teto, o firmamento
Tinha como lustre a lua
E havia um certo João
O dono da padaria
Que a Raimundo não daria
Nem migalha de seu pão
Ao olhar pela janela
Disse do pobre Raimundo:
“Este animal imundo
Vai sumir com a clientela”
Porém, todos que passavam
Nem olhavam para o chão
E o mendigo, como um cão
Tinha angústias que gritavam:
“É a vida um triste jogo”
Na urgência de esquecê-las
Foi dormir sob as estrelas
Acordou pegando fogo

Foi-se embora a doença
Nunca mais teria fome
Em seu túmulo sem nome
Só se lia: Indiferença

(Baseado numa notícia de jornal. Uma homenagem a todos os moradores de rua que têm sofrido com a crueldade sem tamanho do ser “humano”)

morte e primavera

março 5, 2012

O mais estranho foi que ninguém notou a minha morte. Talvez porque não tenha sido trágica, ou porque minha existência não se tenha feito exatamente notável. Talvez – e desta hipótese gosto mais – seja porque ela não foi completa. Continuo a viver, com pedaços muito mortos, junto a outros moribundos, presos no mesmo corpo onde, a todo o momento, parecem brotar sementes.

Sim, morri. A cada segundo, sigo morrendo de mortes muitas. Mortes que, longe de significar descanso, são atropeladas por nascimentos sem fim. Um sem número de novas partes continua a nascer, impedindo o meu luto por aquilo que se foi. Morte e parto, ambos vindos de repente, num pulsar quase incessante.

Sou-me, agora, uma estranha. Morta-viva, muito viva. Dolorosamente viva, incompletamente morta. Que restou, senão lembranças tortas? O que morreu levou tudo o que havia. O que nasceu não teve, ainda, a chance de viver. O que resta é incompleto.

Terra árida que esconde um solo fértil: é assim meu coração.

Morro e nasço, a todo instante.
Desfaço-me inteira, em folhas secas…desabrocho em primavera.

 

 

 

branca anita

fevereiro 27, 2012

Lembro ver-te a face clara
A olhar o céu que chora
E pedindo à Santa Clara
Que levasse a chuva embora

Este sol que tu pedias
Fez brotar um chão de flor
Hoje são feitos teus dias
Todos duma mesma cor

Tu receias ir tão cedo
Crês que teu partir é grave
Pequenina, vá sem medo
Teu adeus será suave

Tu irás numa manhã
Quente, calma, ensolarada
A paz, hoje, tua irmã
Vai deixar-te bem cuidada

A tua alma, numa dança
Voará, azul, enorme
Leve, como quem descansa
Partirás como quem dorme

poesia noturna

fevereiro 9, 2012

Noite passada, tive sonhos tão dispersos
Meio acordada, me perdi em meus delírios
Imaginei estar deitada em brancos lírios
Em cada pétala, pude escrever meus versos

Durante a noite enluarada, mal dormida
Criei o mais belo poema já escrito
Poucas palavras traduziram o infinito
De sonho em sonho, rimei toda a minha vida

Em minha mente, tanta coisa eu escrevi
Passou a noite, veio o dia e me esqueci
Pela manhã, quando acordei, não tinha nada

Levou o dia a tradução de meus anseios
Meus versos lindos foram meros devaneios
E a poesia se perdeu na madrugada

liberdade

fevereiro 7, 2012

Liberdade:
um pedacinho da gente
que bateu asas, voou
e contou que eu simplesmente
poderia ser quem sou

Não sei por que, mas esta imagem me lembrou desta poesia aqui.

consolação

janeiro 28, 2012

Como é difícil, sonhador, te ver assim
Que dor imensa vive dentro do teu peito
Não fica triste, por favor, confia em mim
Quando te digo que o amor não é perfeito

Sei que carregas o mais puro sentimento
Que, de tão belo, faz doer, quase te mata
Mas tu és forte pra aguentar o sofrimento
Ou preferias ter o coração de lata?

Por mais que doa, não deixa o amor morrer
Tens toda vida para amar e mais sofrer
Não chora mais pois o teu coração é jovem

Tenta sorrir, pois já é hoje um outro dia
Pudesse eu, lhe devolvia a alegria
Destes teus olhos, que frustrados, hoje chovem

da parte que falta

janeiro 24, 2012

Tiraram-me um pedaço
Eu não sei que parte era
Nem por onde se perdeu

Só sei que nele havia a explicação
pra todas as coisas deste mundo.

a visita

janeiro 22, 2012

A tristeza veio, assim, sem avisar. Não bateu na porta, nem marcou horário. Foi entrando, espaçosa, e sentando no sofá. Encontrou-me desprevenida, com a caneca de chocolate nas mãos e os pés descalços. Tive de confessar-lhe: não esperava sua visita. Não agora, quando tudo estava bem. O dia fora bonito; as pessoas, gentis e o almoço me rendera uma companhia agradável. Por que hoje, minha senhora? – perguntei-lhe. Não me respondeu. Apenas apontou o assento ao seu lado, sugerindo que eu me sentasse junto a ela. Disfarcei e procurei na geladeira qualquer coisa para lhe oferecer. Não havia nada mais que um pouco de leite e algumas fatias de pão, que ela prontamente recusou.

Vem, senta aqui – disse, finalmente, um olhar quase carinhoso – Peço desculpas se não avisei de minha vinda. Mas não há problema, agora. Afinal, você não estava fazendo nada, estava? Vim porque pensei ter sentido cheiro de saudade, ou te ouvido cantar baixinho… Além disso, a casa estava vazia e a solidão do fim de tarde pareceu-me convidativa.

Suspirei. E era mesmo.

Acomodei-me junto a ela e ficamos ali, numa cumplicidade silenciosa. Foi paciente quando, enfim, chorei. Um choro abundante, que acabou quando eu já não acreditava haver um fim.

Pronto.

Olhei pra ela, envergonhada. Não se preocupe, já estou acostumada – falou. E foi a minha companhia pelo restante da noite. A que horas foi embora, eu não saberia dizer… Já estava adormecida.

Sonhei pouco, sem pensar muito na visita inesperada. Pensando bem, fora melhor que ela tivesse aparecido hoje. Amanhã, afinal, eu já havia marcado um compromisso inadiável com a alegria e, vou confessar, não estava mesmo disposta a dividir a minha atenção entre as duas.